Kast
de la Espriella
Contexto
Em dez meses, quatro países da América do Sul definiram a Presidência em 2º turno, sempre entre um candidato de direita e um de esquerda. No Chile, em dezembro de 2025, José Antonio Kast, do Partido Republicano, de direita, venceu Jeannette Jara, do Partido Comunista, candidata da coalizão de esquerda do governo de Gabriel Boric. No Peru, em junho de 2026, Keiko Fujimori, da Fuerza Popular, de direita, venceu Roberto Sánchez, de Juntos por el Perú, de esquerda. Na Colômbia, também em junho, Abelardo de la Espriella, do movimento Defensores de la Patria, de direita, venceu Iván Cepeda, do Pacto Histórico, a coalizão de esquerda do presidente Gustavo Petro. Em outubro, no Brasil, o presidente Lula, do PT (Partido dos Trabalhadores), de esquerda, venceu Flávio Bolsonaro, do PL (Partido Liberal), de direita, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
São países diferentes antes mesmo do voto. O Peru é o mais indígena: uma em cada cinco pessoas. Chile e Brasil são os mais urbanos, perto de 88%. O Chile tem a população adulta mais escolarizada, com 11,3 anos de estudo em média, e o Brasil, a menos, com 8,4.
No resultado, os parecidos são outros. Kast foi o que mais venceu, e o Chile não se parece com nenhum dos outros: foi a única vitória folgada, e o mapa chileno se ordena pela religião. Peru e Colômbia se parecem pelo resultado geral, com a direita vencendo por um ponto ou menos. O Brasil, o único a eleger a esquerda, se parece com o Peru em vários traços do mapa.
Para cada país, cruzamos o voto da menor unidade disponível (comuna no Chile, província no Peru, município na Colômbia e no Brasil) com o perfil social do território. Os dados descrevem territórios, não pessoas. O dado diz que, onde há mais de um traço, houve mais voto num candidato, não que as pessoas com esse traço votaram nele. E os indicadores não são idênticos entre países, por isso se compara a direção, não o tamanho.
Quatro resultados, quatro pontos de partida
Kast teve 58,2% e venceu em 310 das 346 comunas. Foi a única vitória ampla. Fujimori (50,1%) venceu por menos de meio ponto, e De la Espriella (50,5%), por cerca de um. Lula teve 51,8%, uma diferença de 3,6 pontos.
O território conta uma história à parte. Fujimori venceu a Presidência ganhando só 46 das 196 províncias. Essas 46 reúnem 61,7% dos votos do país, e só Lima tem 32,2%. De la Espriella venceu em 64% dos municípios, e Lula, em 52%. Uma comuna, uma província e um município não têm o mesmo peso, então o território vencido não substitui o voto.
Onde a esquerda e a direita são fortes
No mapa, cada país tem a sua divisão. No Chile, quase tudo é de Kast. Jara venceu em 36 comunas, quase todas no centro do país, na periferia de Santiago, a capital, e em Valparaíso, a segunda maior cidade do Chile. Em nenhuma delas passou de 60%. No Peru, o país se parte em dois: a serra deu 69,9% a Sánchez, e a costa, onde está Lima, deu 58,5% a Fujimori.
Na Colômbia, a esquerda é forte nas bordas: o Pacífico deu 77,7% a Cepeda, e o Caribe, 58,5%. O centro andino, com dois terços dos votos, deu 55,4% a De la Espriella. No Brasil, o Nordeste deu 69,4% a Lula, e o Sul e o Centro-Oeste deram 62,6% e 60,0% a Flávio. O Norte se dividiu ao meio: Pará e Amazonas com Lula, Roraima, Rondônia e Acre com Flávio.
Kast × Jara
Fujimori × Sánchez
De la Espriella × Cepeda
Flávio × Lula
O mesmo traço, o sinal contrário
No debate público, o eleitor de direita costuma ter um retrato fixo: mais urbano, mais escolarizado, com mais renda. Nos quatro países, esse retrato muda de sinal de um lugar para outro. O Brasil se parece mais com o Peru.
Para comparar, dividimos o eleitorado de cada país em duas metades. Na escolaridade, por exemplo, uma metade vive nas comunas, províncias ou municípios menos escolarizados, e a outra nos mais escolarizados. O gráfico mostra quantos pontos a direita teve a mais, ou a menos, na metade com mais do traço.
No Peru e no Brasil, as barras de escolaridade, urbanização e pobreza vão para a direita. Na metade mais escolarizada do Brasil, Flávio teve 52,4%, e na menos escolarizada, 44,1%. No Peru, a distância foi maior: Fujimori teve 58,6% e 41,6%. A cidade votou em Fujimori e a serra rural, em Sánchez. Na Colômbia, as barras são curtas: escolaridade, urbanização e pobreza quase não separam os candidatos.
No Chile, todas as barras vão para a esquerda, mas isso não quer dizer que quanto mais estudo, menos Kast. Medimos a escolaridade pela média de anos de estudo dos adultos de cada comuna, segundo o Censo 2024. É o tempo passado na escola, não uma medida de conhecimento. Por essa régua, o voto em Kast desenha um U. Ele teve 70,0% nas comunas com 9 a 10 anos de estudo, caiu para 54,2% nas de 13 a 14 e voltou a subir, para 62,7%, nas de 14 ou mais, como Vitacura (87%), Lo Barnechea (83%) e Las Condes (78%).
As duas pontas do U são o campo e os bairros ricos de Santiago. O fundo, entre 12 e 14 anos de estudo, inclui a Grande Santiago popular e de classe média, onde Kast ficou abaixo de 50% em Maipú e em Puente Alto. As comunas desse fundo reúnem 46% dos votos, e os bairros ricos, 8,3%. Por isso, a metade mais escolarizada do Chile votou menos em Kast, e a barra vai para a esquerda. O mesmo acontece com a urbanização, em que Kast teve 63,1% na metade menos urbana e 53,4% na mais urbana, e com a pobreza: 68,0% nas comunas com menos pobres, que reúnem 5% dos votos, 54,7% no meio e 60,4% na metade mais pobre.
Com a população afrodescendente, o Brasil fica do lado da Colômbia e do Chile. Na metade com mais pessoas que se declaram pretas, Flávio teve 44,0%, e na outra, 52,4%. Na Colômbia, Cepeda foi melhor onde há mais população afro, como no Pacífico. No Chile, onde só 0,9% da população se declara afrodescendente, a barra também vai para a esquerda. No Peru, a população afro da costa norte votou mais em Fujimori.
No Brasil, parte dessas diferenças é a distância entre regiões: o Sul e o Centro-Oeste têm menos pobreza e votam mais à direita que o Nordeste. Mas a pobreza separa os candidatos mesmo quando se compara cada município só com os do próprio estado. A escolaridade, a urbanização e a população preta separam menos dentro de cada estado, mas continuam separando.
A religião não conta uma só história
No Chile, a religião foi o traço que mais ordenou o mapa. Onde há mais pessoas sem religião, Kast teve bem menos votos (−0,67). Onde há mais católicos e evangélicos, teve mais. No Brasil, o crescimento evangélico vem redesenhando o mapa eleitoral há mais de uma década.
No Brasil, os municípios mais evangélicos votaram mais em Flávio (+0,39), e essa relação se mantém igual dentro de cada estado (+0,39). Mas a divisão é outra. A população sem religião não faz diferença no Brasil (+0,01). O que separa é ser evangélico ou católico: os municípios mais católicos votaram menos em Flávio (−0,30), enquanto no Chile votaram mais em Kast.
O único traço que se repete
A população indígena é o único traço medido nos quatro países em que as quatro barras vão para o mesmo lado. Nos quatro países, a direita teve menos votos na metade do eleitorado que vive nos lugares mais indígenas. A diferença é maior na Colômbia (56,4% contra 43,9%) e no Peru (56,3% contra 43,9%), e menor no Brasil (50,2% contra 46,3%) e no Chile (60,0% contra 56,5%).
O que muda é a escala. No Peru, uma em cada cinco pessoas se identifica como indígena (20,3%, Censo 2017). No Chile, 11,5% (Censo 2024). Na Colômbia, uma em cada 22 (4,5%). No Brasil, 0,6% da população se declara indígena no quesito cor ou raça do Censo 2022. Por isso, no Brasil, a barra aparece, mas quase não pesa no resultado.
No Chile, as metades escondem um detalhe. As 30 comunas onde os indígenas são maioria votaram em Kast (67,6%), das aimarás do altiplano, como Colchane, às mapuches da Araucanía, como Galvarino e Saavedra. Mas elas somam 1,9% dos votos. Os dados são das comunas, não das pessoas, e não dizem como votou cada eleitor indígena.
Onde a esquerda é forte, e quanto isso pesa
Três dos quatro países têm uma região onde a esquerda vence com folga. O que muda é o tamanho dela. O Nordeste deu 69,4% a Lula e reúne 28,4% dos votos do Brasil. A serra peruana deu 69,9% a Sánchez e reúne 26,7%. O Pacífico colombiano deu ainda mais a Cepeda, 77,7%, mas reúne só 7,1% dos votos. No Chile, Kast venceu nas 16 regiões.
Brasil e Peru têm bases do mesmo tamanho. A diferença está fora delas. Fora da serra, Sánchez teve 42,6% e perdeu. Fora do Nordeste, Lula teve 44,8% e venceu. Na Colômbia, Cepeda foi melhor fora do Pacífico (47,7%), mas a base era pequena demais para compensar.
A outra diferença é a idade. O Nordeste nem sempre foi do PT. Em 2002, Lula teve no 1º turno quase a mesma votação no Nordeste e no resto do país (45,9% e 46,6%). Em 2006, na reeleição, a distância passou para 24,6 pontos e não voltou a ficar abaixo de 19,7. Estudos sobre o tema ligam essa virada aos programas de transferência de renda e ao aumento do salário mínimo (Hunter e Power, 2007, e Zucco, 2008). Desde 2010, o Nordeste dá cerca de 70% ao PT em todo 2º turno.
Nos vizinhos, a esquerda chegou ao 2º turno com nomes e partidos diferentes a cada eleição. No Peru, a serra do sul vota contra o establishment ao menos desde Ollanta Humala, em 2006, mas esse voto foi para quatro partidos em quatro 2º turnos. No Brasil, o PT esteve nos sete 2º turnos desde 2002.
Há também a trajetória do candidato. Lula disputava a sua sétima eleição presidencial. Perdeu em 1989, 1994 e 1998, venceu em 2002 e 2006, foi impedido de concorrer em 2018, quando o PT perdeu com Fernando Haddad, e voltou a vencer em 2022, contra Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, disputava a Presidência pela primeira vez. Ele compartilha a identidade política do pai, mas não é o mesmo candidato, e nada garante que tenha herdado o mesmo eleitorado. É razoável supor que reconhecimento, organização e memória de campanha ajudaram Lula. Os dados territoriais, porém, não medem quanto.
Do 1º para o 2º turno
Os quatro chegaram ao 2º turno de pontos de partida muito diferentes. Fujimori passou com só 17,1% num campo fragmentado, e Sánchez, com 12,2%. Kast chegou em segundo, com 24,0%, atrás de Jara (26,8%). Na Colômbia e no Brasil, os dois finalistas já somavam mais de 85% no 1º turno. No Brasil, quem liderava era Flávio (47,0% contra 45,2%). Esses percentuais são só dos finalistas. Em vários países, a direita tinha mais de um candidato no 1º turno. No Chile, Kast dividia esse eleitorado com Johannes Kaiser e Evelyn Matthei, e os três somavam 50,3%. No Peru, Rafael López Aliaga (11,7%) também era de direita, e na Colômbia, Paloma Valencia (7,0%).
Só no Chile o finalista de direita cresceu mais que o de esquerda: Kast ganhou 34,2 pontos e Jara, 15,0. Parte da explicação está em quem ficou pelo caminho. Os candidatos de direita eliminados, como Johannes Kaiser e Evelyn Matthei, somavam 26,4 pontos. No Peru e na Colômbia, o finalista de esquerda cresceu um pouco mais (Sánchez 37,7 contra 33,0, Cepeda 7,5 contra 6,3), mas não o bastante para virar.
No Brasil, como no Chile, quem chegou em segundo venceu, mas aqui quem cresceu foi o finalista de esquerda. Lula ganhou 6,6 pontos e Flávio, 1,2. Em votos, Lula teve 10,38 milhões a mais no 2º turno. Os candidatos de centro e de esquerda eliminados, como Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante), que o termômetro da SETA classifica no centro, somavam 6,26 milhões. A conta só fecha com eleitores vindos de outro lugar: de candidatos de direita, de quem anulou ou de quem não votou no 1º turno. Os números agregados mostram para que lado o 2º turno andou, mas não dizem quem votou em quem.
Quantos votaram
O voto é obrigatório no Chile, no Peru e no Brasil, onde vale dos 18 aos 70 anos, e voluntário na Colômbia. A regra ajuda a entender o comparecimento, mas não explica tudo. Chile e Brasil tiveram os maiores comparecimentos, com 85,6% e 80,8%. O Peru, também com voto obrigatório, ficou em 68,5%, perto dos 64,3% da Colômbia, onde votar é voluntário. Estes dados não permitem dizer por que o Peru votou menos.
No Brasil, o comparecimento subiu entre os turnos, de 78,9% para 80,8%. Em 2010, 2014 e 2018, tinha caído. Não é possível dizer, com estes dados, quem eram os eleitores que voltaram.
Fechamento
Os quatro mapas não mostram um eleitor de direita latino-americano. Mostram um chileno, um peruano, um colombiano e um brasileiro, cada um preso à sua geografia. Alguns traços se repetem, como a cidade e a escolaridade do lado da direita, que o Brasil divide com o Peru, e a população indígena do lado da esquerda, nos quatro países. Outros mudam de sentido, como a religião e a população afrodescendente.
Cada resultado se explica por uma combinação própria. No Chile, Kast venceu em quase todo o território e cresceu com os votos da direita eliminada no 1º turno. No Peru, a esquerda teve uma base forte na serra, mas perdeu na costa, onde está Lima, e chegou ao 2º turno com um partido diferente, como em todos os 2º turnos desde 2006. Na Colômbia, a esquerda venceu nas bordas, no Pacífico e no Caribe, e perdeu no centro andino, onde estão dois terços dos votos. No Brasil, a base regional tem o tamanho da peruana, mas vota no mesmo partido há vinte anos, e a esquerda foi competitiva fora dela. Fica uma pergunta que estes dados não respondem: quanto pesaram, em cada país, a continuidade dos partidos e a trajetória dos candidatos, de Lula, que disputava a sétima eleição presidencial, a Fujimori, que chegava ao seu quarto 2º turno?
Limites. Os resultados não estão no mesmo grau de fechamento: o Peru usa o corte de cerca de 93% das atas, e a Colômbia, a pré-contagem. Os indicadores sociais são os mais parecidos possíveis, mas não idênticos: na Colômbia e no Brasil, os anos de estudo são estimados a partir do nível de instrução, e a pobreza da Colômbia é multidimensional. Os dados descrevem territórios, não pessoas, e não medem campanhas nem transferências individuais de votos.